Wednesday, January 03, 2007

um adendozinho

é que me divirto quando vejo os automóveis como extensões óbvias dos motoristas. é uma chavinha no modo como você enxerga as coisas que vira e dura alguns segundos, durante os quais você só entende o automóvel desse jeito (i.e. como um animal, com personalidade de animal) tipo aqueles desenhos que podem ser um homem barbudo ou um homem careca, e quando você pensa em um o outro some completamente.
(não achei o link que queria, mas é tipo isso, acho)
acontece mais quando os carros estão ansiosos num semáforo vermelho, e logo que ele fica verde, um arrancando com cantar de pneus e o outro truncado, engolindo marchas, personalidades tão diferentes dentro daquele capôzinho vermelho-metálico. logo depois o espanto cede para "eita, isto é uma máquina de uma tonelada com alavancas, pedais e combustível e eu consigo manejá-la pra usos prosaicos, e todo mundo acha normal". daí logo depois vira só o carro mesmo, e não penso no que estou fazendo.
mas isso tudo bem, acontece sempre. o que mais me espanta são os ônibus. rapaz, estes sim, quase sempre eu vejo como uma entidade ou ser vivo, até esqueço do motorista lá dentro. principalmente quando na w3 e encurralado entre dois, um deles faz um barulho *PFFSSHH* ou *RAWHUHPFFF* e eu tenho vontade de matá-lo com uma lança ou sei lá, fico imaginando outros c3s vindo me ajudar, seguindo o ônibus pro lugar onde ele dorme e colocando fogo, pra depois fugir correndo, cantando pneu, com medo infantil, sabendo que esta forma redondinha de c3 não espanta ninguém, e deveríamos nos unir.
parece uma tira do perry bible fellowship, mas eu os vejo assim, não há o que fazer.

(e eu já vi o lugar onde eles dormem. fica na asa norte, numa das quadras fechadas. cochilam, pelo menos)

capítulo latinoamericano sobre coincidências divinas


(entendendo coincidências divinas por aquelas coincidências muito precisas que só deos é capaz de reconhecer, por ter estado em todos os lugares desde o início dos tempos)
Em um trem que ia para a estação de Santa Apolônia, Lisboa, buscar passageiros para Madrid, ocupavam dois leitos de uma cabine de quatro um senhor espanhol de 82 años (que aparentava setenta e poucos) e um senhor de meiaidade nascido em Cabo Verde. Discutiam sobre países ricos, pobres, i.emigrações, e concordaram que onde há escassez as pessoas trabalham, e onde há abundância as pessoas matam umas às outras. Concordaram, também, primeiro timidamente, depois enfaticamente, que alguns países tinham que passar por ditadura, que não estavam prontos para democracia, aquela velha história (o señor adicionou algo sobre não poder beber uísque nos tempos de Franco). o senhor de caboverde não achava trabalho há três anos. em parte, ele acha, por ele ser negro, não vêem o que ele sabe fazer. o señor espanhol tinha uma fabulosa capacidade de digressão, tem um sobrinho que produziu algumas películas em hollywood e tomou 23 pílulas antes de dormir (o señor).

Na estação de Santa Apolônia um grupo cabeludo de músicos espanhóis (que encheram dois carrinhos de supermercados com várias malas e instrumentos) conversava alto, quando um deles começou a batucar numa tamborcoisa, atraindo para si o círculo dos outros, como se fossem berberes ao redor de uma fogueira, sobre tapetes na areia; um outro começou a acompanhar com palmas ciganas, desenvolvidas durante vendas de cavalo entre o império romano, a românia, e o império turco-otomano; outro identificou a possibilidade de encaixar uma melodia do john coltrane, mas, sem sax, cantava a melodia com a boca, apertando os lábios, no que foi acompanhado pelos outros. Estavam assim empolgados com o tanto de misturas milenares quando um guarda gritou lá do outro lado que aquilo não estava certo, não podiam levar carrinhos de supermercados até a gare, e aí o trem chegava, e só aí é que está a coincidência divina.

O trem emitiu um apito estrondoso e incômodo, mas realmente impressionante foi o barulho posterior, da frenagem, que começou num metálico muito agudo, de tal forma que sentia-se que o barulho deve ter começado numa frequência inaudível, passando por toda a faixa audível pras nossas orelhinhas humanas e voltando ao inaudível, de tão grave que ia engrossando, passando pelo barulho que os elefantes fazem quando trocam carícias e pelo que a baleia faz quando se sente triste pela sua condição de baleia, tão sozinha, a comer coisinhas miúdas que mal se vê, e, por um momento, o som da frenagem tornou-se exactamente igual ao que fez um alossauro, 4 milhões de anos antes, ao morrer desolado, ferido mortalmente por um macho maior que tomou sua alossaura. os músicos fizeram uma algazzarra de palmas e batucadas à chegada do trem, o guardinha barrigudo cruzou alguns trilhos olhando pros lados e subindo a calça, sempre esbravejando, e deos sentiu um friozinho na barriga de tristeza, porque foi o único a lembrar dos alossauros, bichos desajeitados e predadores, mas que tinham lá seu charme.


(reconstrução do som da frenagem: *****HHIIIIIII*IIIIIIIIIIIIIIIIIÉ*ÉÉÉIIÉÉIIÉÉIIÉÉéééééaaooØoouuuuumMMMNNNNNNNNNNNNMMNMN;;;;;;;;;;)