Saturday, July 29, 2006

bombeiros


Ao lado de um Corpo de Bombeiros do Lago Sul havia mato que crescia até a cintura, desregrado e seco, que os bombeiros adentraram bandeirantemente, apararam a grama, delimitaram linhas com cal, ergueram traves e fizeram um lugar para aulinhas de futebol. Havia também bancos feitos de troncos de árvore, revezamento para ver quem seria professor ou juiz em quais dias, uma sala com medalhas*, e um bombeiro bonachão que ficava a cortar laranjas à margem do campo, e as dividia com quem ficasse de fora e fosse mais amigo dele. Sei porque era bem amigo dele, ele era chamado para fazer as vezes de juiz nos aniversários dos meus primos e sabia o nome de todos da família. Eu freqüentemente ia da casa de meus primos ou direto lá de casa pra aula, tomando um todynho no caminho. Era zagueiro, e fiz gol contra um dia.
Tinha esse moleque mentiroso que tinha uma cicatriz enorme de um lado ao outro do peito, apropriadamente apelidado de Sagat. Ele dizia não só ter bonecos oficiais da Bandai quando todo mundo comprava na feirinha do Paraguai, como afirmava ter personagens muito obscuros, como o mestre yoda-roxo do Shiryu (Dohko, que depois demonstraria ser o Libra) e a irmã do Seya, Seika. Mas quando não estava mentindo ele era de boa, esse moleque. Acho que mentia para parecer legal, talvez porque tivesse uma enorme cicatriz.
Lembro de constatar assustado, em um jogo contra um time de outras bandas, que alguns caras do time adversário tinha bigode. Serviu de consolo para a derrota usar repetidas vezes "pais de família" para descrever o time que nos derrotou. Parecia uma expressão extraordinária, à época.
Além do prédio modesto construído oficialmente, os bombeiros pareciam ter construído coisas simples nos arredores ( exemplo já mencionado: campo de futebol), talvez porque deviam ter alguns dias sem muito o que fazer e construir coisas, bater martelos, é uma forma máscula de gastar tempo e energia. aliás, ser auto-didata em engenharia é uma das únicas coisas másculas que um auto-didata pode fazer. Assim que havia uma lanchonetezinha improvisada (enroladinhos e coca-cola) feita basicamente de chapas de telhado de zinco colocadas juntas como cartas de baralho, que abria ou fechava com o uso de uma chapa do metade do tamanho das outras presa por ferrolhos na parte de cima, como uma porta de dobradura horizontal. Abria-se a lanchonete como se arma uma arapuca: puxando essa chapa para cima, e colocando um tronco alto e fino para segurá-la. Fechava-se, naturalmente, com a remoção do tronco e inevitável queda da chapa, que não parece ser uma dessas coisas que quebra facilmente, ou que daria muito prejuízo se quebrasse. Diziam que um dos moleques mais velhos (as turmas da aulinha eram divididas por idade) tinha demonstrado sua idéia de piada chutando a trave-que-segura-a-aba (chutando o pau da barraca, se vocês me permitem) enquanto outro colega, embaixo da chapa, comia seu enroladinho de queijo, e que isso teria causado um sério sangramento pela parte da cabeça do colega que comia enroladinho de queijo. Por isso eu nunca ficava embaixo da chapa, especialmente se moleques mais velhos estivessem por perto. Eles tinham um ar de violência desnecessária, de quem bate em pessoas mais fracas porque podem, ainda mais depois que jogavam bola.
Tinha uns passarinhos que sobrevoam perto demais da nossa cabeça quando a bola ia para o mato e perto do ninho deles, e era meio legal arriscar a vida se aproximando do ninho de alguma coisa.
Um dos nomes da minha juventude que talvez eu lembre no meu leito de morte é o do Hilarivan. Hilarivan não compunha uma figura digna de seu nome altissonante - tinha um cabelo engraçado e personalidade bem apagada, até o fatídico dia da queda de Hilarivan.

parágrafo seguinte: o confronto com o professor e a subseqüente queda de Hilarivan

Acho que tinha insultado o professor, sei lá, e o professor apelou, e disse que ele estava suspenso por um dia. Hilarivan ignorou as reprimendas e continuou jogando bola - o que foi muito chato para todo mundo - e o professor falou que cada vez que ele encostasse na bola era mais um dia de suspensão. E o moleque continuou jogando, de cabeça baixa, e o professor contando os dias suspensos enquanto ele conduzia a bola, em voz muito alta, porque tava lá do outro lado do campo : "TRÊS,... QUATRO,... CINCO,... SEIS" e todo mundo ia ficando cada vez mais sem graça, nem demonstrávamos resistência quando ele passava correndo com a bola, todo mundo querendo que aquilo acabasse logo. E o professor gritou, em algum lugar depois do dez: "VOCÊ TÁ EXPULSO, NEM PRECISA VOLTAR MAIS", e o moleque saiu do campo e no final da aula todo mundo viu que ele tava sentado num tronco, chorando. eu sei porque foi a única vez que eu vi e provavelmente não verei de novo, alguém chorando num destes bancos carvados num tronco.
Não sei, ele deve ter aparecido na aula seguinte, acho que este era o procedimento geralmente adotado com suspensões: nós as ignorávamos. Lembro que um dia mandei o professor tomar no cu, o que foi extremamente insensível, mas eu era um moleque budisticamente calmo e muito polido a maior parte do tempo, e notoriamente descontava todas as frustrações - muitas - durante jogos de futebol. O professor me suspendeu mas fui para a aula seguinte e acho que nem eu nem ele lembrávamos bem do acontecido, embora tenha sido uma das coisas mais insensíveis que já fiz, certamente. Ao menos a pendenga se deu com o professor substituto, com quem tínhamos menos afinidade. Nunca faria isso com o professor principal, que divida suas laranjas comigo e roubava descaradamente para o time do meu irmão, que era menor, quando apitava nos aniversários dos meus primos. Ele chupava dindin como um de nós e tinha pernas engraçadas ao se sustentar parado, os joelhos a dobrar um pouco para trás.



*acho que ganhei um campeonato pelos bombeiros, a final no iate clube. um dos meus dois títulos no futebol. o outro pelo Lobo Branco, no primeiro ano do mackenzie de brasília. muito legal, não fosse a parte "mackenzie de brasília".

1 Comments:

Blogger vinícius castro said...

caaaralho. hilarivan mártir.

6:10 PM  

Post a Comment

<< Home