capítulo latinoamericano sobre coincidências divinas
(entendendo coincidências divinas por aquelas coincidências muito precisas que só deos é capaz de reconhecer, por ter estado em todos os lugares desde o início dos tempos)
Em um trem que ia para a estação de Santa Apolônia, Lisboa, buscar passageiros para Madrid, ocupavam dois leitos de uma cabine de quatro um senhor espanhol de 82 años (que aparentava setenta e poucos) e um senhor de meiaidade nascido em Cabo Verde. Discutiam sobre países ricos, pobres, i.emigrações, e concordaram que onde há escassez as pessoas trabalham, e onde há abundância as pessoas matam umas às outras. Concordaram, também, primeiro timidamente, depois enfaticamente, que alguns países tinham que passar por ditadura, que não estavam prontos para democracia, aquela velha história (o señor adicionou algo sobre não poder beber uísque nos tempos de Franco). o senhor de caboverde não achava trabalho há três anos. em parte, ele acha, por ele ser negro, não vêem o que ele sabe fazer. o señor espanhol tinha uma fabulosa capacidade de digressão, tem um sobrinho que produziu algumas películas em hollywood e tomou 23 pílulas antes de dormir (o señor).
Na estação de Santa Apolônia um grupo cabeludo de músicos espanhóis (que encheram dois carrinhos de supermercados com várias malas e instrumentos) conversava alto, quando um deles começou a batucar numa tamborcoisa, atraindo para si o círculo dos outros, como se fossem berberes ao redor de uma fogueira, sobre tapetes na areia; um outro começou a acompanhar com palmas ciganas, desenvolvidas durante vendas de cavalo entre o império romano, a românia, e o império turco-otomano; outro identificou a possibilidade de encaixar uma melodia do john coltrane, mas, sem sax, cantava a melodia com a boca, apertando os lábios, no que foi acompanhado pelos outros. Estavam assim empolgados com o tanto de misturas milenares quando um guarda gritou lá do outro lado que aquilo não estava certo, não podiam levar carrinhos de supermercados até a gare, e aí o trem chegava, e só aí é que está a coincidência divina.
O trem emitiu um apito estrondoso e incômodo, mas realmente impressionante foi o barulho posterior, da frenagem, que começou num metálico muito agudo, de tal forma que sentia-se que o barulho deve ter começado numa frequência inaudível, passando por toda a faixa audível pras nossas orelhinhas humanas e voltando ao inaudível, de tão grave que ia engrossando, passando pelo barulho que os elefantes fazem quando trocam carícias e pelo que a baleia faz quando se sente triste pela sua condição de baleia, tão sozinha, a comer coisinhas miúdas que mal se vê, e, por um momento, o som da frenagem tornou-se exactamente igual ao que fez um alossauro, 4 milhões de anos antes, ao morrer desolado, ferido mortalmente por um macho maior que tomou sua alossaura. os músicos fizeram uma algazzarra de palmas e batucadas à chegada do trem, o guardinha barrigudo cruzou alguns trilhos olhando pros lados e subindo a calça, sempre esbravejando, e deos sentiu um friozinho na barriga de tristeza, porque foi o único a lembrar dos alossauros, bichos desajeitados e predadores, mas que tinham lá seu charme.
(reconstrução do som da frenagem: *****HHIIIIIII*IIIIIIIIIIIIIIIIIÉ*ÉÉÉIIÉÉIIÉÉIIÉÉéééééaaooØoouuuuumMMMNNNNNNNNNNNNMMNMN;;;;;;;;;;)

3 Comments:
fico trocando a fonte, que coisa horrível. muito esquisito, tudo isso aqui.
se foder, bicho. excelente.
li alossauro como inventado, depois soou familiar, agora indeciso.
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