Tuesday, June 10, 2008

sentaro ma que ia.

quando o homem anda tanto a cavalo que comanda as rédeas com naturalidade instintiva é que as pernas do cavalo tornam-se extensões das dele. Extensões de velocidade e força, braços e pernas*. Daí que o centauro é uma criatura mitológica muito massa porque trata da fundição básica das extensões do homem com a tecnologia do domínio do animal. É uma fundição com outro animal, mas ainda assim uma questão de relação de extensões e domínio técnico.
A possibilidade de ter pernas de cavalo é equivalente à de ter pernas e braços mecânicos mais eficientes que os comuns. Centauro é tipo um andróide das antigas, e centauromaquias são como essas guerras que você vê por aí de homens contra replicantes, o medo de sermos substituídos por híbridos ou máquinas mais eficientes sempre ao redor.

(tem pouco a ver, mas é massa demai -> http://en.wikipedia.org/wiki/Time-lapse)

*de potência sexual, também, mas isso deixo pra imaginação dos convidados.

Sunday, May 11, 2008

materiais no conto 'all god's children can dance'

- mercury vapor lamps
- asphalt roadway
- concrete wall w/ barbed wire
- leather shoes
- rubber-soled loafers

Wednesday, January 03, 2007

um adendozinho

é que me divirto quando vejo os automóveis como extensões óbvias dos motoristas. é uma chavinha no modo como você enxerga as coisas que vira e dura alguns segundos, durante os quais você só entende o automóvel desse jeito (i.e. como um animal, com personalidade de animal) tipo aqueles desenhos que podem ser um homem barbudo ou um homem careca, e quando você pensa em um o outro some completamente.
(não achei o link que queria, mas é tipo isso, acho)
acontece mais quando os carros estão ansiosos num semáforo vermelho, e logo que ele fica verde, um arrancando com cantar de pneus e o outro truncado, engolindo marchas, personalidades tão diferentes dentro daquele capôzinho vermelho-metálico. logo depois o espanto cede para "eita, isto é uma máquina de uma tonelada com alavancas, pedais e combustível e eu consigo manejá-la pra usos prosaicos, e todo mundo acha normal". daí logo depois vira só o carro mesmo, e não penso no que estou fazendo.
mas isso tudo bem, acontece sempre. o que mais me espanta são os ônibus. rapaz, estes sim, quase sempre eu vejo como uma entidade ou ser vivo, até esqueço do motorista lá dentro. principalmente quando na w3 e encurralado entre dois, um deles faz um barulho *PFFSSHH* ou *RAWHUHPFFF* e eu tenho vontade de matá-lo com uma lança ou sei lá, fico imaginando outros c3s vindo me ajudar, seguindo o ônibus pro lugar onde ele dorme e colocando fogo, pra depois fugir correndo, cantando pneu, com medo infantil, sabendo que esta forma redondinha de c3 não espanta ninguém, e deveríamos nos unir.
parece uma tira do perry bible fellowship, mas eu os vejo assim, não há o que fazer.

(e eu já vi o lugar onde eles dormem. fica na asa norte, numa das quadras fechadas. cochilam, pelo menos)

capítulo latinoamericano sobre coincidências divinas


(entendendo coincidências divinas por aquelas coincidências muito precisas que só deos é capaz de reconhecer, por ter estado em todos os lugares desde o início dos tempos)
Em um trem que ia para a estação de Santa Apolônia, Lisboa, buscar passageiros para Madrid, ocupavam dois leitos de uma cabine de quatro um senhor espanhol de 82 años (que aparentava setenta e poucos) e um senhor de meiaidade nascido em Cabo Verde. Discutiam sobre países ricos, pobres, i.emigrações, e concordaram que onde há escassez as pessoas trabalham, e onde há abundância as pessoas matam umas às outras. Concordaram, também, primeiro timidamente, depois enfaticamente, que alguns países tinham que passar por ditadura, que não estavam prontos para democracia, aquela velha história (o señor adicionou algo sobre não poder beber uísque nos tempos de Franco). o senhor de caboverde não achava trabalho há três anos. em parte, ele acha, por ele ser negro, não vêem o que ele sabe fazer. o señor espanhol tinha uma fabulosa capacidade de digressão, tem um sobrinho que produziu algumas películas em hollywood e tomou 23 pílulas antes de dormir (o señor).

Na estação de Santa Apolônia um grupo cabeludo de músicos espanhóis (que encheram dois carrinhos de supermercados com várias malas e instrumentos) conversava alto, quando um deles começou a batucar numa tamborcoisa, atraindo para si o círculo dos outros, como se fossem berberes ao redor de uma fogueira, sobre tapetes na areia; um outro começou a acompanhar com palmas ciganas, desenvolvidas durante vendas de cavalo entre o império romano, a românia, e o império turco-otomano; outro identificou a possibilidade de encaixar uma melodia do john coltrane, mas, sem sax, cantava a melodia com a boca, apertando os lábios, no que foi acompanhado pelos outros. Estavam assim empolgados com o tanto de misturas milenares quando um guarda gritou lá do outro lado que aquilo não estava certo, não podiam levar carrinhos de supermercados até a gare, e aí o trem chegava, e só aí é que está a coincidência divina.

O trem emitiu um apito estrondoso e incômodo, mas realmente impressionante foi o barulho posterior, da frenagem, que começou num metálico muito agudo, de tal forma que sentia-se que o barulho deve ter começado numa frequência inaudível, passando por toda a faixa audível pras nossas orelhinhas humanas e voltando ao inaudível, de tão grave que ia engrossando, passando pelo barulho que os elefantes fazem quando trocam carícias e pelo que a baleia faz quando se sente triste pela sua condição de baleia, tão sozinha, a comer coisinhas miúdas que mal se vê, e, por um momento, o som da frenagem tornou-se exactamente igual ao que fez um alossauro, 4 milhões de anos antes, ao morrer desolado, ferido mortalmente por um macho maior que tomou sua alossaura. os músicos fizeram uma algazzarra de palmas e batucadas à chegada do trem, o guardinha barrigudo cruzou alguns trilhos olhando pros lados e subindo a calça, sempre esbravejando, e deos sentiu um friozinho na barriga de tristeza, porque foi o único a lembrar dos alossauros, bichos desajeitados e predadores, mas que tinham lá seu charme.


(reconstrução do som da frenagem: *****HHIIIIIII*IIIIIIIIIIIIIIIIIÉ*ÉÉÉIIÉÉIIÉÉIIÉÉéééééaaooØoouuuuumMMMNNNNNNNNNNNNMMNMN;;;;;;;;;;)

Tuesday, November 28, 2006

arrumadeira dançando com ex-prefeito municipal

aproveitando o clima de brasilidade que senti nesses dias, dou minha contribuição citando citações (assim mesmo) de obras que tentaram construir isto que está aí. ("está aí" metaforicamente, porque eles construíram metaforicamente, tipo nas nossas cabeças, tipo um castelo de cartas marcadas).

Gil Vicente

"... em Frandes e Alemanha,
em toda França e Veneza,
que vivem per siso e manha,
por não viver em tristeza,
não he como nesta terra;
porque o filho do lavrador
casa lá com lavradora,
e nunca sobem mais nada;
e o filho do broslador
casa com a brosladora:
isto per lei ordenada."

ou ainda:

"Camões, poeta Caolho,
grande vate português,
enxergava mais com um ôlho
do que nós todos com três.

Na França, tudo é errado,
na França, tudo anda a êsmo,
na França, pescoço é cu,
no Brasil, cu é cu mesmo."

Tuesday, October 24, 2006

it's a revelation


















yeah it's a revela-tioon (8)

Saturday, July 29, 2006

bombeiros


Ao lado de um Corpo de Bombeiros do Lago Sul havia mato que crescia até a cintura, desregrado e seco, que os bombeiros adentraram bandeirantemente, apararam a grama, delimitaram linhas com cal, ergueram traves e fizeram um lugar para aulinhas de futebol. Havia também bancos feitos de troncos de árvore, revezamento para ver quem seria professor ou juiz em quais dias, uma sala com medalhas*, e um bombeiro bonachão que ficava a cortar laranjas à margem do campo, e as dividia com quem ficasse de fora e fosse mais amigo dele. Sei porque era bem amigo dele, ele era chamado para fazer as vezes de juiz nos aniversários dos meus primos e sabia o nome de todos da família. Eu freqüentemente ia da casa de meus primos ou direto lá de casa pra aula, tomando um todynho no caminho. Era zagueiro, e fiz gol contra um dia.
Tinha esse moleque mentiroso que tinha uma cicatriz enorme de um lado ao outro do peito, apropriadamente apelidado de Sagat. Ele dizia não só ter bonecos oficiais da Bandai quando todo mundo comprava na feirinha do Paraguai, como afirmava ter personagens muito obscuros, como o mestre yoda-roxo do Shiryu (Dohko, que depois demonstraria ser o Libra) e a irmã do Seya, Seika. Mas quando não estava mentindo ele era de boa, esse moleque. Acho que mentia para parecer legal, talvez porque tivesse uma enorme cicatriz.
Lembro de constatar assustado, em um jogo contra um time de outras bandas, que alguns caras do time adversário tinha bigode. Serviu de consolo para a derrota usar repetidas vezes "pais de família" para descrever o time que nos derrotou. Parecia uma expressão extraordinária, à época.
Além do prédio modesto construído oficialmente, os bombeiros pareciam ter construído coisas simples nos arredores ( exemplo já mencionado: campo de futebol), talvez porque deviam ter alguns dias sem muito o que fazer e construir coisas, bater martelos, é uma forma máscula de gastar tempo e energia. aliás, ser auto-didata em engenharia é uma das únicas coisas másculas que um auto-didata pode fazer. Assim que havia uma lanchonetezinha improvisada (enroladinhos e coca-cola) feita basicamente de chapas de telhado de zinco colocadas juntas como cartas de baralho, que abria ou fechava com o uso de uma chapa do metade do tamanho das outras presa por ferrolhos na parte de cima, como uma porta de dobradura horizontal. Abria-se a lanchonete como se arma uma arapuca: puxando essa chapa para cima, e colocando um tronco alto e fino para segurá-la. Fechava-se, naturalmente, com a remoção do tronco e inevitável queda da chapa, que não parece ser uma dessas coisas que quebra facilmente, ou que daria muito prejuízo se quebrasse. Diziam que um dos moleques mais velhos (as turmas da aulinha eram divididas por idade) tinha demonstrado sua idéia de piada chutando a trave-que-segura-a-aba (chutando o pau da barraca, se vocês me permitem) enquanto outro colega, embaixo da chapa, comia seu enroladinho de queijo, e que isso teria causado um sério sangramento pela parte da cabeça do colega que comia enroladinho de queijo. Por isso eu nunca ficava embaixo da chapa, especialmente se moleques mais velhos estivessem por perto. Eles tinham um ar de violência desnecessária, de quem bate em pessoas mais fracas porque podem, ainda mais depois que jogavam bola.
Tinha uns passarinhos que sobrevoam perto demais da nossa cabeça quando a bola ia para o mato e perto do ninho deles, e era meio legal arriscar a vida se aproximando do ninho de alguma coisa.
Um dos nomes da minha juventude que talvez eu lembre no meu leito de morte é o do Hilarivan. Hilarivan não compunha uma figura digna de seu nome altissonante - tinha um cabelo engraçado e personalidade bem apagada, até o fatídico dia da queda de Hilarivan.

parágrafo seguinte: o confronto com o professor e a subseqüente queda de Hilarivan

Acho que tinha insultado o professor, sei lá, e o professor apelou, e disse que ele estava suspenso por um dia. Hilarivan ignorou as reprimendas e continuou jogando bola - o que foi muito chato para todo mundo - e o professor falou que cada vez que ele encostasse na bola era mais um dia de suspensão. E o moleque continuou jogando, de cabeça baixa, e o professor contando os dias suspensos enquanto ele conduzia a bola, em voz muito alta, porque tava lá do outro lado do campo : "TRÊS,... QUATRO,... CINCO,... SEIS" e todo mundo ia ficando cada vez mais sem graça, nem demonstrávamos resistência quando ele passava correndo com a bola, todo mundo querendo que aquilo acabasse logo. E o professor gritou, em algum lugar depois do dez: "VOCÊ TÁ EXPULSO, NEM PRECISA VOLTAR MAIS", e o moleque saiu do campo e no final da aula todo mundo viu que ele tava sentado num tronco, chorando. eu sei porque foi a única vez que eu vi e provavelmente não verei de novo, alguém chorando num destes bancos carvados num tronco.
Não sei, ele deve ter aparecido na aula seguinte, acho que este era o procedimento geralmente adotado com suspensões: nós as ignorávamos. Lembro que um dia mandei o professor tomar no cu, o que foi extremamente insensível, mas eu era um moleque budisticamente calmo e muito polido a maior parte do tempo, e notoriamente descontava todas as frustrações - muitas - durante jogos de futebol. O professor me suspendeu mas fui para a aula seguinte e acho que nem eu nem ele lembrávamos bem do acontecido, embora tenha sido uma das coisas mais insensíveis que já fiz, certamente. Ao menos a pendenga se deu com o professor substituto, com quem tínhamos menos afinidade. Nunca faria isso com o professor principal, que divida suas laranjas comigo e roubava descaradamente para o time do meu irmão, que era menor, quando apitava nos aniversários dos meus primos. Ele chupava dindin como um de nós e tinha pernas engraçadas ao se sustentar parado, os joelhos a dobrar um pouco para trás.



*acho que ganhei um campeonato pelos bombeiros, a final no iate clube. um dos meus dois títulos no futebol. o outro pelo Lobo Branco, no primeiro ano do mackenzie de brasília. muito legal, não fosse a parte "mackenzie de brasília".

Wednesday, July 12, 2006

Raça: Brasil

a acusação de racismo que um professor da unb (e, mais importante, pai de um amigo de infância cuja imagem no arquivo de memória é bem nebulosa, envolve um óculos e um modo exasperado de falar) nos levou a semi-acaloradas (mentira) discussões sobre cotas, e tal. a opinião geral é que as cotas são um retrocesso, logicamente, talvez porque a maioria dos argumentos que se escuta é que "o negro é lindo". enfim, somando a+b chegamos ao problema que seria ter que determinar sua raça na carteira de identidade, coisa de gueto-doidão, e de como, ao me recusar a ter minha raça determinada na nova carteira de identidade, eu seria preso pela primeira vez na vida. logicamente ninguém atentaria muito para a confusão enquanto ela acontecesse, mas quando minha biografia fosse escrita minha integridade ficaria evidente, e, posteridade, se ainda estiver com aquela carinha de bebê, gostaria que Camila Morgado fizesse meu papel. No momento que um homem gordo e malvado do governo perguntasse pela minha raça, Camila (eu, no caso) responderia, como se declamasse porcamente um poema do Vinícius de Moraes: Brasil.
Raça Brasil.
talvez cantasse o hino ao ser preso, não sei. acho o hino muito escroto.